Suas crônicas conquistaram espaço no jornal Zero Hora, mas com o advento da internet ganharam o mundo através de spam. A realidade é que, existe uma grande dificuldade em lê-los e não repassá-los aos amigos. Ela também escreve poesias, mas teve projeção nacional com "Divã", um romance que virou filme e foi sucesso de bilheteria em 2009.
Dentro dos três seguimentos ela também é autora dos títulos: Strip-Tease; Meia noite e um quarto; Persona non grata; De cara lavada; Poesia Reunida; Geração Bivolt; Topless; Trem-Bala; e Santiago do Chile. Literatura, inspiração, disciplina e comportamento humano são alguns dos temas abordados na conversa da escritora com a revista Domínios.
Domínios Autora de poesias, crônicas, romances, em que linguagem você se realiza mais?
Martha Medeiros Gosto de me expressar em todos os gêneros, mas admito que a crônica, atualmente, tem me dado uma surra... Tem sido difícil encontrar um assunto que seja interessante e original. São 15 anos palpitando sobre os mais diversos assuntos e às vezes me sinto repetitiva. Ainda assim, me dedico bastante, escrevo cada crônica como se fosse a primeira da minha vida. Considero um luxo poder viver de escrever para um número tão grande de pessoas, como o jornal possibilita. Mas prazer mesmo eu sinto em escrever ficção, que é, infelizmente, o gênero que menos domino. A ficção me faz sentir mais livre, posso ser mais inventiva, deixar de ser eu, criar personagens, explorar novas formas de linguagem. Isso tem me deixado mais estimulada do que ficar presa à minha própria opinião.
D. Aparentemente, sinto que as pessoas gostam mais de textos que retratam as mazelas humanas, do que aqueles que retratam a alegria. Você também sente isso? Por quê?
M.M. A maioria das pessoas coleciona mais mazelas do que alegrias em suas vidas, ou ao menos dão às mazelas mais relevância. O ser humano é trágico por natureza. Não vivenciamos desmoronamentos físicos, como aconteceu no réveillon de Angra, mas todos nós desmoronamos por dores de cotovelo, sonhos não atingidos, problemas de relacionamento com filhos, etc. Ninguém escapa, todos nós fazemos parte das estatísticas dos desvalidos emocionais, pelo menos em alguma etapa da vida. E os leitores (sou leitora também) gostam de ler sobre esses assuntos, de se identificar com eles. Acabam se sentindo menos solitários na sua dor. De qualquer forma, procuro não potencializar demais esses nossos pequenos grandes dramas, e sim dar a eles uma dimensão mais tolerável. O uso do humor ajuda muito.
D. Algum dos seus textos deu uma repercussão que você não esperava? Poderia dividir, com nossos leitores, algum fato interessante?
M.M. O caso mais comentado aconteceu há vários anos, quando escrevi uma crônica no jornal Zero Hora condenando as mulheres que, já maduras, ainda colecionavam bichinhos de pelúcia. Não as chamei de retardadas, mas quase. Pra quê. Recebi uma overdose de críticas. Depois entendi que mexi na inocência de cada um. O bichinho de pelúcia significa uma conexão com a infância e muitas não querem romper esse vínculo. Ainda assim, continuo achando estranhíssimo ver mulheres adultas colocando um sem-número de pelúcias em cima da cama. Implico com quem não consegue fazer seus ritos de passagem. Este é um exemplo de uma crônica com um assunto totalmente irrelevante, mas que causou uma reação descomunal.
D. Seus textos são baseados no imaginário, nas suas experiências pessoais,
ou na obcecada observação do comportamento humano?
M.M. Um misto de tudo. No imaginário, menos. Me baseio mais na observação, nas experiências pessoais e muito, muito, muito nas leituras que fiz. Não seria escritora se não tivesse lido tanto. A literatura é meu alimento diário.
D. "Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento". Essa frase é de um texto seu. Você acredita que as pessoas estão realmente preparadas para sentir? Ou o fato de não fazerem barulho dá a impressão errada de não estarem sentindo?
M.M. Não há como escolher "não sentir", o sentimento é mais forte do que a razão, isso é inegável. Se fosse fácil abafar nossos sentimentos, ninguém mais sofreria. O que precisamos é não temer o sentimento, não lutar contra ele, e sim entregar-se a ele, que é mais forte que nós. E aprender com ele. O que sentimos diz mais sobre nós do que as teorias nas quais nos amparamos.
D. Mais uma frase sua que me fez refletir. "Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música e quem não acha graça de si mesmo". Você tem encontrado muita gente que morre lentamente?
M.M. Conheço muita gente que dá valor à própria vida e faz por merecê-la, mas há também muitos zumbis entre nós, não há dúvida. E eles nem se dão conta de que são zumbis. Não são provocados pela arte, não possuem curiosidade intelectual, vivem a mesma vidinha regrada de sempre, sem jamais trocar de opinião. Ficam paralisados diante de escolhas que possam mudar suas vidas, fogem da paixão, preferem o conforto de um futuro previsível. É uma vida segura, mas eu prefiro me aliar ao risco (um risco mais ou menos calculado, pois não sou tão louca assim...). Sinto uma satisfação interna ao dizer que não sei como serão os próximos meses da minha vida, mesmo que os prognósticos não apontem para nenhuma mudança radical. O fato de eu não saber, simplesmente, já me excita. E viver não é mais do que um estado de excitação constante.
D. Acredito que a Mercedes de Divã, devido a proporção que ganhou, é sua personagem mais famosa. Gostaria que falasse um pouco sobre ela. De onde ela saiu? De alguém em especial, ou é uma mistura?
M.M. Mercedes tem muito de mim. A maneira dela pensar é a minha. Dei a ela experiências que não tive na prática, mas o embasamento emocional e teórico da personagem é fruto da minha própria maneira de pensar, ou ao menos era, quando escrevi o livro. O que mais me surpreendeu é que recebi um feedback impressionante de pessoas que disseram "Mercedes sou eu", e entre elas havia desde garotas de 18 anos, sem vivência alguma, até senhoras de 90. E muitos, muitos homens, inclusive meu pai.
D. Você já se deparou com momentos de total falta de inspiração? Como faz para reverter essa situação?
M.M. Acontece quase todos os dias, mas não espalhe (risos). Às vezes fico imaginando que boa escritora eu seria se não fosse tão preguiçosa, tão hedonista. Troco tudo por um dia na beira da praia, por um encontro com amigas, por uma tarde com o namorado, por um cinema. Passo dias em frente ao computador pensando nisso tudo, menos em trabalhar. Sou organizada, disciplinada, cumpro meus prazos, e esse é o benefício que tive da educação que recebi, jamais deixei ninguém na mão. Mas ser uma mulher responsável não fez de mim uma workaholic, ao contrário, eu nasci para flanar, e dias sem inspiração costumam ser recorrentes. Minha sorte é que tenho juízo, e quando estou num dia mais produtivo, vou até o fundo do pote, extraio dele três, quatro, cinco textos de uma vez só. Arquivo-os, e vou publicando-os aos poucos. Sempre tenho sete ou oito textos "na manga", para não ser pega desprevenida.
D. Pela sua experiência profissional, acredita que as pessoas estão preferindo textos que retratam a realidade ou que tem como base a ficção? Por quê?
M.M. Livros autobiográficos ou que contam histórias reais não diferem tanto assim dos de ficção. Talvez pela forma, mas não pelo conteúdo. A não ser os de ficção científica, realismo fantástico, que são gêneros mais delirantes, abertamente fantasiosos. Enfim, creio que os verdadeiros amantes da literatura gostam de boas histórias e de textos bem escritos, independentemente do assunto e da época em que a história se desenrola. Já o leitor médio quer ter seu investimento de volta, quer que o livro tenha alguma utilidade, e aí se explica o sucesso do segmento de auto-ajuda.
D. Muitas pessoas não sabem que você iniciou sua carreira no mercado publicitário, como migrou para a literatura? Quando foi isso?
M.M. Essa migração foi gradativa. Ao mesmo tempo que trabalhava em propaganda, escrevia poemas e tive a sorte de conseguir lançá-los num livro quando tinha 20 e poucos anos. Por um tempo a poesia e a publicidade conviveram juntas, não imaginei que teria que me decidir entre as duas, mas então comecei a escrever crônicas e isso me exigiu mais dedicação. O trabalho em jornal começou a me absorver mais, e a me dar mais prazer, e assim fui abandonando aos poucos as agências, até que encerrei a prática da profissão. Mas a propaganda representou uma época importante da minha vida e me ajudou muito a desenvolver o meu texto. Se escrevo de forma objetiva, humorada, comunicativa, sedutora, devo muito à propaganda, que estimula essas características.
D. Quais os seus planos profissionais para 2010? Onde seus seguidores poderão ler seus textos?
M.M. Espero lançar um novo livro de ficção, que está praticamente pronto, apenas aguardando uma revisão mais detalhada, talvez eu tenha que reescrever algumas partes que ainda não me satisfazem totalmente. Tenho vontade de voltar à poesia também, e quem sabe lançar uma nova coletânea de crônicas. A última saiu em 2008, "Doida e Santas" (costumo publicar essas coletâneas a cada dois anos). E mais para o fim de ano estou pensando em dar um presente de Natal para os meus leitores, mas isso ainda é um projeto secreto. No teatro, temos o "Divã" em uma montagem inédita, e o "Doidas e Santas" com a atriz Cissa Guimarães. Espero ter fôlego para tudo isso.
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